sábado, 25 de abril de 2009

Um pequeno-almoço em "low motion"!

Uma das coisas boas aliadas ao facto de gostar de viajar e à minha obcessão pela pocura de novas sonoridades é ser surpreendido a quase todo o momento por uma nova lufada de ar fresco em situações inesperadas.
10 da manhã. Uma esplanada qualquer em Veneza. Um coissant de um doce que ainda estou a tentar decifrar o que é e uma chávena largo com um "coffee machiatto".
Pessoas de cá na sua rotina habitual, turistas com máquinas fotográficas e outros só a passear! Gosto disto, cheira a água e a cozinhados a toda a hora...está-se bem aqui!
Da janela de madeira atrás de mim sai um som que entra bem e parece condizer com a paisagem e ambiente local. É delicado e dá-me uma vontade enorme de escrever.
Pergunto se há net e surpreendem-se com a pergunta: "Claro!"
Estúpido, afinal onde é que já se viu haver um espaço público sem algo que é básico para o bem estar dos seus utilizadores...onde a internet é vista como algo não apenas suplementar ou como serviço extra oferecido mas como um bem essencial...algo que faz parte do sistema...só mesmo lá no nosso cantinho, onde se continuam a pagar valores exurbitantes por 10 minutozitos de internet num qualquer banal café sem qualquer tipo de conceito de "serviço público/social"!
Mas bem, espermos para ver como estão as coisas daqui a 10 anos...aliás 25 anos, dizem alguns!
Tem uma placa com com o nome Ali (deve ter raízes do Médio Oriente!?) é simpático e gosta de agradar quem se senta na sua esplanada, por isso pergunto-lhe o nome daquilo que estou a ouvir!
Mostra-me a capa e penso: "Claro, só podia ser isso!"
"Sci-Fi Lo-Fi Volume #2 - Night Of The Dark" com carimbo de Damian Lazarus! Quem podia mais ser? Ok! O Pilooski também o poderia ter assinada, mas seria um bocadinho diferente!
Como é que deixei passar uma relíquia destas e só agora (e aqui!) é que a venho a descobrir.
Já conhecia o seu primeiro tomo da série "Sci-Fi Lo-Fi", no entanto, no meio de tantas novidades e novas edições passou-me completamente ao lado a segunda viagem da Damian Lazarus à volta do "dirty sound" envolto numa cosmicidade em câmara lenta!
Com uma capa elucidativa do conteúdo do disco e com selo da Soma, Damian Lazarus leva-nos durante uns bons minutos a descobrir o que de melhor há no seio da "música suja".
Quebrador de barreiras estilisticas e um autêntico "destruidor" (no bom sentido" do conceito de pista de dança, Damian aponta-nos um lugar bem distante de tudo aquilo que conhecemos bem longe daqui...parece-me sonhar com um mundo perfeito e acreditar que é possível alcança-lo, como se fosse o dono da fórmula perfeita para o atingir!
É um disco diferente de todos se o considerarmos como sendo um disco feito por alguém que se mexe nas teias da música de dança, discotecas e clubes.
E é por isso mesmo um verdadeiro achado perfeito numa manhã perfeita!
Está lançado o desafio a entrarem num outro mundo em "câmara lenta" durante alguns minutos!
E agora vou dar uma volta!

Veneza, 25 de Abril de 2009.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O estado das coisas, hoje!

Num país onde me passam uma multa por ouvir ou transportar CD´s gravados dentro do meu próprio carro, onde o primeiro-ministro “afiambra” uns milhares assim como quem não quer a coisa e onde as minhas contas podem ser vasculhadas por curiosos inoportunos só com vontade de chatear e o sinto-me com vontade enorme de levantar o som da minha aparelhagem!
Quanto aos CD´s tudo bem, até se percebe! Acredito que andar num carro o dia todo a ouvir o barulho de rádios remotos com aqueles sons maquinalmente enfadonhos, compreendo que se sintam ligeiramente incomodados e até mesmo chateados quando percebem que existe alguém que está melhor que eles e ouve música boa e que acima de tudo pode escolher! Para mim, é só inveja! E se a coisa correr bem, o condutor farto da insólita situação ainda lhe manda os CD´s para cima e aí…aí é que a coisa fica perfeita, pois podem ir a viagem de regresso a ouvir algo diferente!
Ok, o “primeiro-ministro é corrupto”, dizia alguém! Tudo bem! E quem não o é? Quem é que nunca pediu um favorzinho a alguém esperando receber algo ou alguma coisa (mesmo não sendo física) em troca…ou quem é que nunca meteu um isqueiro ao bolso mesmo sabendo que não é seu?! E os trocos que a Ti Maria fez mal ao nosso almoço na tasquinha do lado! Todos! É-nos intrínseco e é assim a lei natural das coisas. Aconselhem-se com Darwin e leiam a nova reedição da “Origem das Espécies”. A mim fez-me bem!
Agora, vasculharem-me a conta, como as últimas notícias alertam, quero é mais que os senhores que tiveram esta ideia iluminada (e logo de quem...) e aqueles que a deixaram amolecer (é normal, daqui a uns tempos temos eleições) vão todos dar uma volta bem grande…para um sitio bem longe!
E agora se me desculpam, e peço eu desculpa primeiro por ter entrado abrir desta maneira, vocês não têm culpa, volume bem lá no alto pois os senhores que vos apresento hoje valem bem a pena.
Eles são os The Glimmers!
Primeiro são uma dupla belga. Belga?
Dito assim parece que estamos a falar de outra coisa. Coincidência ou não, as comparações com os 2 Many Djs são inevitáveis. E não só devido às origens!
Estávamos no longínquo ano de 1987 e já Mo e Benoelie alinhavam na mesa de misturas o new beat, electronic body music, acid house, rare disco, pop, new wave e clássicos dos anos 70, animando as pistas de dança para os jovens belgas.
Os sons futurísticos que emergiam de Chicago e Detroit, além da electónica mais experimental do Reino Unido tornaram-se demasiado grandes para a pequena localidade de Ghent, e os The Gimmers fizeram-se à estrada! E como a Bélgica é tão pequenina, a Europa não esperou para confirmar a qualidade da dupla que gozava de uma crescente reputação graças às suas extensas sessões de Sábado no Fifty Five, dançáveis desde as 10 da noite às 8 da manhã, todas as semanas! Isto sim, é arte pah!
Sempre conhecidos pela sua mala ecléctica e pela sua paixão pelo movimento perpétuo da sua amada pista de dança, os The Glimmers não descartam estilos musicais. Não seguiram, por isso, o caminho de especialização que a maioria dos DJ´s percorreu no final da década de 90. (Gosto desta maneira de pensar no acto de misturar discos!)
Responsáveis pelas compilações “Series Noire” 1 e 2, “SCHIZOPHRENIA!” e “Culture Club” Volume I e II, contam sempre com uma amálgama de estilos que lhes granjeia aprovação de vários quadrantes.
Os seus reedits e remixes contam com selos de editoras como Crosstown Rebels, Eskimo, Wally’s Groove World, Blue Note (já viram esta, hã!), Playhouse, a Source, a Gomma, a Sunday Best, Gigolo e Relish.
Enfim no meio de tanta coisinha dita e feita resta-me ficar com o seu DJ-Kicks editado em 2005 pela !K7, onde dentro de um mesmo CD podemos entrar em universos estranhos mas ao mesmo tempo curiosos e viciantes como New Order, Phoenix, Mylo, Munk, Bloc Party ou The Killers.
Já imaginaram a mistela?

Já agora só uma notinha de destaque para o anúncio da campanha do preservativo feminino (sim existe, J) com o “Assobio” dos Dead Combo! Bem conseguido!

domingo, 19 de abril de 2009

A lei dos idiotas!

Demasiado novo para andar nestas lides dizem uns, elemento crucial do mundo da nova electrónica dizem outros...a verdade é que com 19 anos no corpinho já mostrava as suas ideias e dava cartas no mapa dançante internacional!
James Holden é o homem de quem se fala hoje na Xangai!
Nasceu para a música de dança em 1999, com “Horizons” e desde então tem desenvolvido uma frenética carreira, conquistando um reconhecimento mais alargado através das remisturas de “Get Together” para Madonna e “The Darkest Star” para os Depeche Mode.
Depois de uma mão cheia de originais, remisturas, colaborações e álbuns de mistura, onde saliento o genial "At The Controls", James Holden teve ainda tempo e vontade para criar a sua própria editora, a Border Community, etiqueta onde soam agora nomes como The MFA ou o também não menos prodigioso Nathen Fake.
Entre a robustez fria do techno minimal e uma house progressiva e distorcida, James Holden desde muito cedo aprendeu as técnicas que melhor traduziriam a sua forma de ver o universo da música de dança electrónica.
Abraça Detroit e trata por tu Chicago, na construção melódica abstracta em colisão com os impulsos nervosos de uma electrónica em ponto de ebulição...até que chegou ao seu primeiro (e tão aguardado) álbum de originais em 2006 com o carimbo, claro está da Border Community.
A expectativa era grande o nível de exigência quase inatingível, dado o seu percurso até então, no entanto o inglês fez ouvidos surdos a tudo o que à volta dele girava e atirou para fora do bunker da Border uma competente e actualizada visita às linguagens musicais mais avançadas, intitulada como "The Idiots Are Winning"!
Com a infindável e arrojada (e até demasiado abundante!) produção musical electrónica hoje em dia, por vezes é difícil distinguir o bom do mau e o certo do errado, pelo que definir um álbum como sendo bom ou mau que está certo ou errado é na maior parte das vezes um trabalho impossível ou mesmo inútil.
Porém ao escutar "The Idiots Are Winning" pela primeira vez há dois anos (só este fim de semana já o ouvi umas 8 vezes quase seguidas), invadiu-me aquela sensação de estar a ouvir uma música certa mas que ao mesmo tempo está irredutivelmente errada!
Não cumpre a métrica tradicional e ordens de conduta de norteiam a produção electrónica, mas mesmo assim sabe bem...sabe mesmo muito bem!
As músicas não chegam como blocos sonoros consistentes. Ouve-se e sente-se, a cada momento, os loops, os esboços de melodias, os efeitos e as "descidas" numa tentativa desesperada de relacionamento entre si, como se cada faixa se tratasse de um exercício específico desenhado para se compreender as potencialidades dos programas de sequenciação musical.
Quase todas as músicas pretendem ser, simultaneamente, rítmicas, minimais, épicas, dançantes e ambientais, e é nesta confusão de prioridades que o álbum se perde, ganhando aquilo que o torna especial!
Parece que James Holden quer que nos deitemos nas suas texturas, que nos deixemos levar pelas suas progressões ou que dancemos ao som das suas tímidas linhas melódicas que se esquece completamente que é difícil fazer tudo isto num curto espaço de tempo.
Há uma “Lump” a fazer lembrar um Vitalic desinspirado ou uma “10101” que soa a um dia menos bom na vida de Isolée...há um objecto estranho pelo meio em “Intentionally Left Blank”, dois minutos para reflectir sobre o tempo perdido na audição do álbum no mais calmo e absoluto silêncio.
Um albúm regrado de alguém que faz da monotonia uma sentimento realmente aborrecido!
São idiotas!
Vá-se lá saber porquê! :)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Freeki Mutha Fucker!

Moodyman, Kenny Dixon Jr. ou agora Moody é tudo a mesma coisa...mas será que é sempre assim?
Hoje trago-vos uma proposta de degustaçãpo sonora (e que proposta!) que vem por um ponto final a quem pensa que todos os anteriores nomes marcam a sua presença na tela internacional da música de dança da mesma forma!
Por isso, apresento-vos Moody!
Chama-se Det.riot´67 e é o albúm de estreia de Moody, um novo alter-ego de Moodyman...ou Kenny Dixon Jr. :)
Começa com uma dúvida existêncial sem resposta: será um álbum ou um EP?
Sem definição de formato, este singular objecto, presenteia-nos com um pacote divino rico em referências culturais e com um enorme sentido estético!
Desde a memória dos tumultos sociais em Detroit em 1967, principalmente através de excertos radiofónicos ao "blaxpoitation" vidrado no sexo, Det.riot '67 é um discreto manifesto na actual cultura negra norte-americana.
Ainda cedo para atirar nomes para a prateleiras dos melhores do ano (pois é, ainda não coloquei a lista dos melhores de 2008!!!Tá quase!), Det.riot '67 arrisca-se a ser um dos primeiros nomes a figurar nessa lista, tendo em conta o seu original conteúdo e matéria de que é feito...o "primeiro" objecto de culto deste ano!
Não só porque mostra um Moody(mann) empenhado numa escrita explicita e repleta de vocalizações sensuais muito pouco comuns nos seus trabalhos anteriores, como opta pela distensão lasciva da soul sobre grooves meio-abstractos, pelo espiritualismo soul-jazz-funk ou até o deep-house como veículo de apontamento histórico.
Tudo num ápice desconcertante!
Provavelmente Det.riot '67 nunca passará do dos pequenos circuitos de "distribuição", motivo mais que óbvio para despertar a atenção dos mais fervorosos melómanos já habituados às edições limitadas ou enviesadas de Moodymann.
Um álbum amotinado com samples da época, beats políticos à esquerda e à direita e um intenso groove de cerca de 20 minutos sem qualquer vestígio de algum revivalismo implícito!
Uma boa dose de determinação para procurar Det.Riot 67 à boa velha maneira!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Um caminho para o "novo trip-hop"?

É um facto cada vez mais certo que existe algo de muito interessante e viciante a acontecer no mundo da música electrónica!
No início da década, com o “retorno” (ah, ah, ah) do rock, era o hip-hop mais enevoado, o "glitch" e os "clicks and cuts" de selos editoriais como o evidente caso da Raster-Noton que se posicionavam como os centros mais vanguardistas da música do novo milénio.
Também MC’s britânicos como Wiley ou Dizzee Rascal apareciam com "debuts" vigorosos, bebendo muito do UK garage, fazendo "rhymes and poetries" peculiares completamente discrepantes com a estética predominante americanizada.
O grime até pode ter passado "aparentemente ao lado" das modas instauradas, no entanto foi o dubstep (essa mistura ainda hoje em estudo laboratorial que mescla o jungle, o 2-step e eventualmente algumas secções mais dub!) que começou a brotar das malhas mais cáusticas do panorama musical mais "avançado".
Nomes como Burial, Kode9, Skream, Martyn, Blackdown, Benny Ill, Sam Shackleton saltaram do profundo desconhecimento e tornaram-se familiares na comunidade da música electrónica!
Ainda bem!
Mas como o descontentamento e a dúvida movem o progresso e nos impelem a partir à aventura de algo novo, também na música (felizmente para nós, que estamos cá para a ouvir!) há necessidade de seguir essa evolução!
Foi por isso que há cerca de 2 anos a esta parte que alguns produtores e músicos se mostraram "descontentes" com o rumo que o dubstep estava a tomar e decidiram incrementar a sua nova sonoridade com batidas mais funky e efeitos "aquáticos", surgindo assim conceitos como o "aqua-crunk", "wonky" e "bassline".
O som ficou mais inventivo que nunca, surgindo à baila nomes como Flying Lotus e Hudson Mohawke, que herdaram toda a sagacidade para colagens e batidas de J Dilla, Stones Throw e de Prefuse 73.
O "namoro" entre o hip-hop e o dubstep promoveu um interessante diálogo criativo, surgindo álbuns extremamente deliciosos e osmóticos como o segundo álbum de Lukid, Foma!
Luke Blair, o nome por trás de Lukid, produtor inglês decidiu meter hip-hop, techno, disco, dubstep e os mais recentes wonky e bassline na mesma panela e a Werk agraciou aquilo que se veio a tornar num ótimo exemplo desta nova vaga de som.
Os motivos percussivos e os sons mais "climáticos" remetem-nos para paisagens familiares a Los Angeles e até mesmo Flying Lotus, sentindo-se no entanto fortes influências dubstep e outras composições mais introspectivas!
The Books, Vladislav Delay e até Boards of Canada podem surgir como "amigos de peito" no seu myspace sem qualquer crítica a apontar.
Foma é um disco atraente, de audição tranquila e serena, onde as faixas deslizam uma sobre a outra sem grandes solavancos, lembrando um pouco uma sensação de viagem experimental, onde o hip-hop instrumental não é o do breakbeat ou da polirritmia dos Prefuse 73 ou Madlib, mas antes o do downtempo de gente como Alias, Blockhead, Dosh ou o Four Tet ou Pause.
Foma é a consequência de um trabalho de cuidadosa escultura sonora mergulhada numa calda repleta de ambiguidades, envolvendo numa manta de retalhos os mais friorentos apreciadores da arte da samplagem ou os eruditos das electrónicas sem desprezar quem ainda vê no hip-hop instrumental o escape para novas e mais pacificas realidades.
Música sem forma com contornos desfocados e vultos misteriosos, aproveitando-se das incertezas para marcar o terreno por onde caminha.
E sim, esta é uma nova era dourada da música electrónica! Disso tenho a certeza!
E ainda bem que a estamos a viver sem ter que recorrer a livros e publicações antigas e discos que só os nossos pais e amigos mais "cotas" conheceram na altura, deixando-nos a roer de inveja por não ter o prazer de sentir...
Esta é a nossa vez de dizer que se está a fazer história na música!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Noções para uma possível discussão artística!

O que é a “Arte”?
Já lá vai o tempo em que a adolescente ingenuidade era razão suficiente para explicar a esperança depositada nessa alta condição que é ser-se “artista”, finalmente fazer “Arte” e saber de uma vez por toda o que “ela” é.
A verdade é que, até atingir essa condição, é necessário transpor vários níveis de extrema senilidade e conseguir manter a saúde mental para perceber que a realidade é outra, a “Arte” não se faz e pouco mais se sabe…
Ponte sinuosa nas malhas fusionistas de realidades paralelamente entrelaçadas, aterramos directamente em terras germânicas para conhecer um dos que ainda cá anda por gosto e não se cansa de lançar densos rasgos de criatividade sonora e fazer-me realmente pensar no “processo de criar arte na música” (desculpem-me a gigante redundância da expressão utilizada, mas assim visualiza-se melhor! Pode ser? :)…
Patric Catani ou musicalmente Candie Hank, mora em Berlim e é um comprovado “dandy”, um verdadeiro agitador de todo o panorama musical contemporâneo!
Exagero?
Não!
Responsável pelos álbuns "Kimouchi" pela Gagarin Records (lembram-se de vos ter falado de Félix Kubin?!), "Brandy Cramps" com o carimbo francês Wwilko (casa dos Gangpol Und Mit!) ou ainda pelo "A Fistful of Sweets", uma compilação emformato best of non-sense, na esotérica editora russa Solzne Records (Então este desmancha qualquer um!). Descrição nada melhor que a do próprio Candie Hank: “é como atirar uma garrafa de bom vinho à pista de dança, ou seja, uma mistura de funk absurdo, hip-hop abstracto, electrónica dançante, cabaret disfuncional e muito histrionismo à mistura”.
Ele é que diz!
Para mim, um óptimo exemplo de “objecto de reflexão artística”.

sábado, 4 de abril de 2009

Uma bateria e duas canas de bambu!

Gosto deste cheirinho da cidade ao amanhecer...
Vidros fechados ao ponto de provocar uma verdadeira bolha de vácuo, traço de volume um pouquinho mais acima, chave na ignição e estrada!
Está sol e o rio parece mais azul, o som também é bom!
Já abordado em viagens anteriores por passagens por Lisboa, hoje volta a estar de novo em cima da mesa o nome de Gabriel Ananda!
Chama-se Bambusbeats e carimbou a presença do alemão no ano de 2007 no panorama da música de dança com mais um tiro certeiro!
A estrela da companhia da cena minimal de Colónia, Gabriel Ananda fez-me pensar em duas coisas.
Primeira, isto realmente é bem menos melódico e abstracto do que certas outras coisas que ouço! Certo! Segundo, será que Gabriel Ananda se está a transformar num músico de jazz?
Gritos?! Desespero?! Pânico!? Não!
O feeling geral do disco pode ser definido, como uma matriz minimal orgânica...mas um pouco diferente do convecional!
Hipnótico e repetitivo sem cansar...Ananda parece torcer o nariz aos clichés que ditam os "padrão-base" da música de dança minimalista, criando um clima aberto e cadenciosamente apetitoso!
"Offbeat" tem tech-groove viajante e "Bambus" respira alguma coisa bem perto da raíz subterrânea que atravessa Europa por baixo da terra e mar e chega a África. Suponho que seja bem no centro!
"Egge" e "Take Off" são puras e à moda antiga! Só que uns aninhos depois!
"Trommelstunde" carrega um ritmo chocalhante com rasgos a tocar no jazz com uma caixa aqui e um prato acolá.
Já quase a chegar, "Lamakova" chega bem mais delicada, como se de um groove acolchoado se tratasse e dissesse "Tem um bom dia!"
Sofisticação sonora e um raro requinte foi a prenda que Mr. Gabriel Ananda me ofereceu!
Não é fresquinho mas é " bem bonzinho" :)

Este estranho Portugal!

E como que se uma noite chegasse para resolver um dilema, hoje acordei e decidi que não podia deixar passar mais um dia sem destacar o perfeito trabalho de um novo grupo nacional, os Aquaparque.
É Isso Aí, editado há apenas alguns dias pela Aquaboogie, é dos álbuns mais mais excitantes que tenho ouvido ultimamente, simplesmente porque não é um disco como os outros...carregando consigo a verdadeira essência exótica desta "nova Xangai v2.0".
Estava a faltar-nos uma música para definir o conceito de "exotismo musical" fervilhante e saltitante, então que seja a música dos Aquaparque.
E se depois de uma visita a um museu de arte contemporânea adormeceres sob um sol quente de auscultadores nos ouvidos a debitarem uma selecção aleatória de Mler Ife Dada, Heróis do Mar, GNR, António Variações, Ocaso Épico e mais alguma Não Nova Iorque, o mais provável é que sonhes com a música dos Aquaparque...ou algo parecido (Panda Bear?!)
Com uma capa misteriosa e desdobrável em quatro podemos logo à partida escolher a parte que mais gostamos para ilustrar o disco encaixando na perfeição no conteúdo estranho da construção das mesmas canções.
Mas tudo isto faz sentido!
Isto porque estas músicas não são como as outras!
Fogem ao conceito predefinido que temos do que é construir uma boa canção.
Criados por geração espontânea ou eventualmente por manipulação genética em laboratório (ainda ninguem sabe!?), os Aquaparque surgem das cinzas dos estimulantes dAnCE DAMage, sendo os seus herdeiros Pedro Magina e André Abel.
Rotulam-se com um carimbo meta-prog ou lá o que isso quer dizer...e cantam em português! Há teclados abundantes e percussões sincopadas e aleatoriamente perdidos!
Passam o tempo a desfazer conceitos e oferecem-nos musicas que são ao mesmo tempo, experimentais, minimais, electrónicas, rock e até pop. Cabe tudo aqui!
A voz surge maioria das vezes embutida na camada instrumental, servindo por isso como mais um instrumento. Mas um instrumento que solta palavras certeiras! Poesia que não é poesia, pinta na perfeição este quadro.
Assim à primeira vista se quisermos arranjar paralelos para este som podemos dizer que os Aquaparque estão próximos de uns Ocaso Épico pelos teclados e uso da voz ou de uns Pop Dell’Arte pela arte em "partir" canções.
Juntamente com o (não menos genial!) álbum de estreia dos Gala Drop, É Isso Aí anuncia qualquer coisa de novo que já fervilhava na cena que deu Loosers, no entanto agora é transportada até um extremo.
Soa a novo e arcaico ao mesmo tempo, como os tais sonhos que vos falei logo ao início que podem ser simultaneamente estranhos e familiares, excitante na forma como cruza uma imaginativa produção muito apoioada na electrónica com uma voz mergulhada em onírico reverb, que atira tudo para outro lugar exactamente igual a este, só que muito melhor!
Enquanto houver bandas assim é enorme o orgulho que devemos sentir, pois cremos realmente que temos almas capazes de "concorrer" com a ala mais vanguardista que nos chega lá de fora...e claro, nos façam perceber que nem sempre a canção mais "lá lá lá", é a mais perfeita.

Bass Culture - Episode I

Querem festa...ora tomem lá festa da rija! Daquelas que sabem a fresco como se tratassem de algo ainda em fase híbrida e plastificada!
O que é que o Reggae, Drum & Bass e Dubstep terão em comum?
O trio usa, e por vezes abusa, das chamadas frequências sub-graves: frequências cuja reprodução em alto volume consegue suscitar sobre o ouvinte a sensação de pulsar, um batimento vibrante despoletado por força dos baixos.
Será por se sentir no próprio corpo que o sub-grave envolve seguidores de diferentes esferas musicais, trazendo-os pela mão a um só espaço, o Parque de Estacionamento do Marquês de Pombal...humm!
Bass Culture intitula uma série de eventos dedicados a esta cultura do baixo em Portugal, iniciando a odisseia na Lisbon Underground, a 4 de Abril.
Para o 1º Acontecimento ou Episódio como lhe queiram chamar, a viagem fica a cargo de colectivos e soundsystems de peso.
Nos pratos com sabor a reggae, apresentam-se Fankambareggae, No Joke Sound System, Big Badda Boom ou Concrete Jungle, enquanto os ritmos mais acelerados e hipnóticos da noite ficam entregues aos CoolTrain Crew, pelas santas mãos de Johnny, Riot e Alx, fazendo-lhes companhia na cabine de som os Pressure Force, dupla formada por Dinis e Nuno Forte.

Até que enfim que a luz já se começa a ver! Assim sim, é bonito de se ver!

v2.0 e uma viagem em marcha lenta!

Voltamos! v2.0...por este andar qualquer dia transformamos isto num avião!
Desculpas pela demorada retoma à parte, é hora de fazer jus ao nome e recomeçar ao trabalho! Tudo aquilo que devem e querem saber anda por aqui espalhado, aqui ou ali, por isso, caneta na mão e siga!
Escrever é aquele processo trabalhoso de tirar ideias da cabeça e dispô-las sob a forma de palavras sequenciadas. Muitas vezes, temos a ilusão de que podemos escrever tudo, que o potencial da escrita é ilimitado e de que a simples folha em branco ou a tela do computador tem um poder infinito, porém ao contrário daquilo que pensamos, aquilo que escrevemos está vigorosamente coartado. É limitado pela circunferência de ideias que temos na nossa cabeça e pela liquidez da transferência entre a nossa cabeça e a possível sequência de palavras cá fora!
Os nossos pensamentos também não são ilimitados e só uma parte deles tem forma transferível para as palavras, tal como as próprias palavras se esgotam em si, nem tudo o que se consegue pensar pode ser escrito.
Para certas coisas do domínio do inexprimível precisamos até que as palavras se desprendam e percam a sua solidez para que possam transportar as colorações informes de certas coisas que queremos dizer!
Acima de tudo é isto que a Xangai Market significa para mim, enquanto plataforma individual de reflexão sobre um modo de encarar uma via dentro da minha vida...e tu que estás desse lado, convido-te a simplesmente ler, porque é para ti que escrevo...ah e claro, para mim!
Filosofices para o lado...2009 já está quase a meio e há por aí muita coisinha boa, aliás a roçar o excepcional! Já cá fazia falta uma entrada rasgante como tem sido a deste ano!
Reedições maravilhosamente aguardadas, álbuns de estreia completamente estonteiantes (isto porque me estou a lembrar do novo projecto português "Aquaparque", com que ando completamente viciado) e claro, compilações refinadissimas!
"The Grandfather Paradox" é o título que vos deixo como conselho degustativo para o dia de hoje!
Editado pela BBE já este ano, o paradoxo do Avô foi concebido como parte de uma reflexão sobre as viagens no tempo. E por isso serve de título perfeito para esta imprudente viagem através de 50 anos de música minimal conduzida pelos patrões da Innervisions, Henrik Schwarz, Ame e Dixon.
O álbum é duplo e apresentado nas versões misturadas e "DJ friendly", começando a viagem com "Electric Counterpoint", peça escrita por Steve Reich e executada por Pat Metheny. A partir daí conta a imaginação dos compiladores que inteligentemente chamam a esta viagem o punk-funk dos Liquid Liquid, o funk tropical dos Cymande, o disco de Patrick Moraz, o pós-rock de To Rococo Rot ou a electrónica cinemática de John Carpenter.
A repetição é o ponto de contacto entre estas experiências que se encaixam na perfeição umas nas outras sublinhando mais as afinidades do que as diferenças!
Faz parte dos manuais essenciais da corrente minimalisma pela ambição e tão pouca falta de vergonha de quem teve genial ideia, claro está no bom sentido!

PS: Façam-me um favor, comprem o novo disco dos Aquaparque - É Isso Aí (Aquaboogie) ou tirem-no da net ou se forem mais comodistas vão até ao myspace deles...não interessa...mas digam-me o que é aquilo, pah! Merece um comentário...deixem-me engolir mais uma vez!
Para mim, do melhor que se fez até hoje em terras lusas! Sim, disse mesmo isto!