A cultura bass, que une navegantes das águas do dubstep, UK funky, grime ou de múltiplas variáveis do house, é uma das mais presentes e dominadoras forças no panorama de clubes do Reino Unido.
Em Portugal, entre os seus mais destacados praticantes, encontramos os Octa Push, duo de irmãos com os nomes de Mushug e Dizzycutter, apostados em cruzar a África das memórias de infância e o futuro em temas que são desenhados à dimensão das pistas de dança e dos sistemas de som mais exigentes.
No novo EP, incluído na mais recente série da Optimus Discos, os Octa Push, que já foram elogiados por Thom Yorke, contam com participações de MC Zulu e K-Tronic, nas vozes e de Infestus, outro produtor que dá uma mão em "Gengibre".
Afinal sempre há vida para os tugas além fronteiras para além da apanha da maçã...
ANBB são as iniciais de Alva Noto e Blixa Bargeld, os dois agitadores que corporizam este projecto musical que surgiu em 2007, muito tempo depois de se terem conhecido e de ter nascido admiração mútua.
Alva Noto, cujo nome verdadeiro é Carsten Nicolai é um artista plástico da era digital, acumulando ainda uma interessante actividade musical ligada à electrónica, não só como músico, mas também enquanto co-fundador da editora Raster-Noton.
Blixa Bargeld nascido como Christian Emmerich, é já um ícone da música alternativa, fruto não só da sua intensa actividade criativa nos Einsturzende Neubauten, mas também do seu papel fundamental na fundação dos Bad Seeds, tendo acompanhado o grupo de Nick Cave durante os seus primeiros vinte anos.
Em "Mimikry", acabadinho de ser editado pela Raster-Noton, é o primeiro longa-duração emanado do universo ANBB, que surge após um EP intitulado "Ret Marut Handshake", um dos temas incluídos no álbum, percebemos que foi uma óptima ideia conjugar o abstraccionismo electrónico de Noto à estranha e intrigante performance vocal de Bargeld.
Se, por um lado, a música se insinua em traços pouco definidos mas que busca inspiração em territórios onde habitam canções, mesmo que se encontrem num estado fragmentário acelerado pelo seu processamento digital, por outro, as vocalizações trazem consigo um estranho paradoxo de conforto e de incómodo, como se fossem gritos de arautos pós-modernos, vestidos de latex negro, a anunciar a chegada de uma nova era.
Aqui tudo se funde na certeza dos ritmos e na incerteza das formas, pequenos pedaços de canção isolados aos quais a voz parece dar unidade e rumo, justificando sem mais a emancipação de ANBB dos territórios antes habitados pelos seus criadores.
Mais um genial tomo sonoro para acabar 2011 a roçar os cumes mais elevados da excelência e perfeição acústica!
Após 3 dias de intensa folia familiar em torno do fenómeno natalício, hoje encontro-me sem grande vontade para longas divagações literárias, por isso deixo-vos apenas com uma sugestão da Ana Raquel, essa assídua leitora da Xangai que vai alimentando de forma regular as publicações da plataforma com dicas de elevada qualidade!
Só tenho que agradecer! É disto que a Xangai também se vai alimentando!
Um beijinho para ela e para todos os leitores da Xangai com votos de uma óptima entrada em 2011 repleta de bons sons e inesquecíveis paisagens sonoras!
Saída da genial compilação "Our House", sob tutela da brasileira Lunatic Jazz, morada sonora dos senhores Jota Wagner e Bruno Camargo, esta excelente "Pistolpuma & Ivaylo" (com direito às merecidas versões remisturadas) de The Walk, vem confirmar o que de melhor se produz por esse louco mundo da música de dança.
"Se prestar atenção em como o mercado da dance music vê o Brasil hoje, não é muito diferente de como os colonizadores nos viam há 500 anos atrás."
Diz o ditado que até ao lavar dos cestos é vindima, no entanto, hoje dou por encerrado o meu ano discográfico...em grande!
Apocaliticamente falando, 2010 puxa a cortina vermelha com um disco que figurará na lista dos melhores para muita gente e também para a administração da Xangai Market.
Estou a falar-vos do novo "tomo" dos Swans!
É de ouvir e de chorar por mais...garanto-vos!
Foram catorze os anos de intervalo desde "Soundtracks For The Blind" até "My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky", o disco que veio romper com o silêncio do corpo moribundo que havia assumido "The Swans Are Dead" como o título para o disco registado ao vivo após a sua tournée (julgávamos) final.
Percebemos agora que Michael Gira foi capaz de manter em estado de hibernação o seu mais visceral projecto e que durante este hiato, ao invés de perder fulgor, foi acumulando energia em estado bruto, a ponto de produzir um dos discos mais intensos, ameaçadores e crus da sua carreira.
Abandonando, apenas em parte, a folk negra e pastoral que preencheu os últimos álbuns da primeira encarnação dos Swans e, também, todo o seu percurso com os Angels Of Light, Michael Gira, acompanhado por Norman Westberg (o outro fundador que resta nos actuais Swans), Christoph Hahn, Phil Puleo (ambos Swans e Angels Of Light), Chris Pravdica e Thor Harris, para além dos convidados Devendra Banhart, Grasshopper (Mercury Rev) e Bill Rieflin (ex-Ministry, ex-Revolting Cock e agora nos REM), usa a música de "My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky" como uma marcha marcial em máximo volume, na qual parecem combater com ferocidade grandes monolitos sonoros em estado primitivo, e de cujo choque violento resulta uma espécie de tensa bonança num caos pós-apocalíptico, mas sem que toda a torrente sónica libertada sacrifique a beleza intrínseca de cada canção.
Este notável regresso dos Swans parece devolvê-los à urgência catártica de "Children Of God" de 1987, não como se a máquina do tempo nos obrigasse a andar para trás, mas como se os fantasmas que então assaltaram Gira, voltassem de novo, de modo refinado, para atormentar a sua alma criativa, que parece alimentar-se vorazmente do pesadelo interior.
"My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky" é um disco emocional, desesperado e brutal, jogado sempre muito próximo dos limites.
É, por isso, um dos marcos de 2010!
Venham mais 12 meses...que nós cá estaremos para os degustar!
PS1: Claro que até ao final do ano ainda poderei falar de mais algum álbum, no entanto duvido que supere a magnificiência deste dos Swans!
PS2: Curioso, que cada vez gosto mais deste tipo de som a roçar o caótico e o sujo, com reminiscências viscerais...interessante! Será que agora com todas as novas "bombas da wikileaks", o fim do mundo anda realmente por aí à espreita?!
Acabadinho de sair da prensa pela Night Slugs, este "Night Slugs Allstars - Volume #.1", carimba o que de melhor e de revigorante se vai fazendo pelos milhares de estúdios espalhados por esse mundo fora e que balanceam de forma energética algumas pistas de dança dos melhores clubes internacionais.
Das 13 receitas mágicas prescritas nesta compilação pela Night Slugs, escolho duas: Jam City com "Aspjam" e Girl Unit em "IRL (Bok Bok Remix)".
Depois de uma pausa semanal intercalar, que supostamente deveria ser aproveitada para descansar, mas que basicamente se resumiu a manter o corpinho acodado até bem tarde, hoje o sono está difícil de chegar.
À falta de cigarros e de uma enorme inércia em levantar o rabo e ir até uma bomba de gasolina comprar um maço, espero meio deitado que essa névoa soporífera me apanhe desprevenido e me embale.
Não consigo!
Bebo um chocolate bem quentinho.
Também não resulta!
Percorro a minha lista de álbuns à procura de algum motivo que me faça desfrutar destes inúteis momentos do dia de forma criativa e eis que dou com aquilo a que eu chamaria "do melhor sedativo auditivo" que pode haver em noites como esta.
"Bitches Brew" de Miles Davis editado em 1969.
O meu preferido, sem dúvida!
Considerado por muitos como o disco que deu origem ao movimento fusionista dentro do jazz, "Bitches Brew" deu ao génio Miles, o seu 1º Disco de Ouro.
Um autêntico pedaço de arte em forma bruta!
De todas, selecciono a minha "mais favorita"...Spanish Key, e se mais houvessem dúvidas de que estaria errado no efeito pretendido para esta música, dou comigo a acordar de um pequeno sonho no final deste pequeno excerto gravado ao vivo em Isle Of Wight em 1970.
Pode parecer cliché, mas a verdade é que se existem bandas que deveriam voltar cá abaixo só mais uma vez para um derradeiro concerto, os Beatles figuravam decerto nessa restrita lista.
Depois do seu assassinato, na noite de 8 de Dezembro de 1980, em Nova Iorque, John Lennon tornou-se lenda e símbolo de uma época.
Faz hoje 30 anos e a Xangai presta-lhe a devida homenagem!
Que a sua inspiração e vanguardismo estético nunca mais se repitam...porque agora, agora não faz sentido!
Hoje aponto a agulha para territórios desviantes do panorama dançante e atiro a minha parca criatividade, e espírito domingueiro, para uma espécie de intermezzo reflectivo sobre a matriz básica onde nos movenos e a música...essa sim, apenas figura como uma "cerejinha no topo do bolo".
Enquanto vemos impotentes o desmoronar de um velho sonho europeu e a ruína de uma história que já começa a ser demasiado pesada para carregar às costas, assistimos impunes ao erguer de novas e revigorantes economias e oportunidades de capitalização e liquidez que só possível quando o dinheiro se encontra no bolso certo.
A crise adequada à hora certa?!
Acabei agora de ler um excelente artigo de opinião de Henrique Raposo no Expresso desta semana ("Sim, Conseguimos"), e por falta de vontade de o transcrever na integra, aguardo que fique online para depois o afixar.
Mas já dizia Eurípedes: "o dinheiro é a religião de um homem de bom senso".
Ou melhor, o dinheiro é a religião universal que a todos nos une!
Para quem acredita ou não, ou pura e simplesmente para aqueles a quem faz apenas pensar, deixo-vos com o meu repertório preferido daqueles dias em que "te sentes mesmo bem porque reconheceram em ti o justo valor comercial".
"She Was Coloured In" é a curiosa estreia dos irlandeses Solar Bears, cuja música optimista se tinge de diversas tonalidades multicolores e recorre a um refinamento estimulante da formulação pop.
Depois do EP "Inner Sunshine", que os apresentou ao mundo, esta dupla constituída por John Kowalski e Rian Trench, surge agora com uma proposta cosmológica de planante combinação de rock e electrónica, que podia ser uma perfeita banda sonora para uma viagem orbital em torno da terra, a bordo de um planador espacial.
A ampla visão que oferece de um espaço amplo e diverso, mas ao mesmo tempo onírico e atmosférico, surge como contraponto a momentos de maior tensão pulsátil, que percorrem na transversal "She Was Coloured In" e o dotam de uma aura etérea, mas suficientemente atenta às realidades mundanas.
Sem nunca mergulhar em nébulas, mas também sem nunca ir além de insinuações de figuras bem definidas, os Solar Bears parecem ter encontrado um magnífico ponto de equilíbrio entre o abstrato e o concreto, mas sempre com a linguagem pop como ferramenta primordial de um apelo bem dirigido, conseguindo projectar imagens épicas de uma felicidade eterna, em câmara lenta, e aconchegar o seu disco de estreia numa viela musical cuja catalogação precisa se torna um exercício destinado ao fracasso, tal a panóplia de elementos diversos que apresenta.
E com esta chuvada toda, sabe bem começar a semana a viajar nessa ténue linha imaginária entre o sonho e a realidade!
Sempre que se fala da Staubgold, o nosso espírito desperta!
Como é que ao longo de tanto tempo a dar sinais de vida, a existência desta complexa e confusa editora, se continua a manter fiel à sua matriz original.
Hoje dei com esta "Forest Full Of Drums", resultante de uma fusão ultra-criativa entre os Mapstation e Paul Wirkus.
É de 2008 e o vídeo foi realizado e editado por Adi Wolotzky e Stefan Schneider...mas nunca é tarde demais, de vez em quando hiper-estimular os nossos "neurónios domingueiros e adormecidos", com uma lufada de experimentalismo percutivo e perdermo-nos por tudo aquilo que esta pequena musica/performance representa.
"Portugal na principal rota do mundo dos grandes espectáculos...", "...bandas que escolhem Portugal como local de início da sua torné mundial..." é o que mais se por aí ouve e lê em revistas, jornais e TV.
Madonnas, Lady Gagas, Neil Youngs, Bob Dylans...e muitos outros mais!
Mas até quando e para quando o baptismo do veterano e maduro Tom Waits à nossa terrinha à beira-mar plantada?!
Acho que já vem sendo tempo de oferecer, com justiça digna e merecida, aos portugueses a vinda deste "velho castiço com voz de bagaço e histórias yodelianas para contar".
Aqui procuram-se bandas sonoras e outras experiências para electrificar de forma indecente momentos descomplexados ou outra qualquer ocasião onde a celebração da música seja importante.
A música que se procura é aquela que é descoberta através de um caminho indefinido, traçada ao sabor das circunstâncias, numa sequência de convulsões e remontagens, numa relação de absoluta sedução com balbúrdia.
Um caminhar aleatório e desconcertado pelos trilhos sinuosos do mundo das extravagâncias sonoras, fazendo paragens nos lugares mais resguardos do silêncio.
Johnny Cooks Dance é o alter-ego gira-disquista de João Alberto, constituindo-se como a sua faceta mais tresloucada, colorida e imprevisível, resultante do seu incessante vício em procurar novas sonoridades e outras motivações! Herdeiro “pós-moderno” de um espírito naturalmente híbrido e experimental, carrega o estandarte da premissa ”DJs are not rock stars.”, afirmando-se como uma personagem que vive da música e gosta de partilha-la, deixando os termos de mix-CDs, sets, bpms, fades, pitchs para os “Djs a sério”. Com uma criteriosa e cuidada selecção musical que privilegia uma certa espiritualidade em detrimento da funcionalidade exigida pela pista de dança, Johnny Cooks Dance começou a sua vida em festas privadas numa atmosfera construída por uma forte rede de amizades a ocuparem o centro das atenções e das intenções. Com uma tendência natural para a imagiologia e fã incondicional de catalogações, durante as suas actuações, o espaço sonoro transforma-se num lugar quase imaginado, preso à realidade por ideias isoladas, reinventando conceitos e misturando aquilo que não se deve misturar, acabando por redescobrir a própria música…pelo menos ele pensa que sim! Ao ignorar o livro de estilo dos DJs, Johnny Cooks Dance encena de forma simbólica um regresso ao estado primitivo da música, decompondo-a em peças elementares e devolvendo-a em conjugações altamente aleatórias e perigosas para quem o escuta! Pensa na música como um espaço num determinado lugar em detrimento dos géneros, onde a música comanda as suas próprias ligações, de forma orgânica fazendo com que no centro da pista ou do salão aquele disco certo suceda de forma mágica ao que parecia estar errado! Ele está enganado e o caminho pode não ser por aqui, disso ninguém duvida! Mas de uma coisa não o conseguem convencer: desistir de fazer aquilo que realmente gosta de fazer que é ouvir e partilhar boa música…ou não acreditasse ele que um dia ainda se levará a sério a lounge music!
Cabletoys
Com a permanente e desenfreada democratização das tecnologias de informação no nosso dia-a-dia, o estar e o lugar deixam de ter o peso e importância como elementos isolados. Estar aqui e agora não significa pensar ou actuar aqui…o ali e o depois deu lugar a uma nova rede de interacções globais, em que o mundo inteiro se encontra ligado à distância de um simples clique. E foi assim que nasceu o projecto Cabletoys! Um novo alter-ego “cósmico-minimalista” de João Alberto, que surge como uma necessidade pessoal de tentar esclarecer-se a ele próprio e a quem o queira ouvir do processo criativo e interpretativo do acto de fazer música…e de como chegar à mesma. Pondo aqui de parte todos os radicalismos que advêm da cultura consumista, Cabletoys recorre a diversos gadgets musicais, aliados a certos engenhos tecnológicos de carácter manipulativo…ou então só para decoração! Já muito se falou e foi escrito acerca deste tipo de abordagem musical, no entanto Cabletoys surge na cena nacional como um projecto inovador dada a matéria-prima em questão. Bizarrias de brincar em comunhão com a seriedade e robustez de sequências definidas…Buddha Machines em loops estonteantes e hipnóticos com vozes perdidas no espaço, mesas futuristas e pulsáteis das Zoundz aleatoriamente construindo ritmos e cadências misturam-se com os devaneios furiosos perdidos naquele espaço. Promete-se uma experiência sinfónica multi-sensorial num retrocesso do digital para o analógico ou mesmo essa mistura, procura-se dar um novo passo em frente para uma nova estrutura musical. Acima de tudo a música, o processo criativo, como se apresenta, os meios de propagação e no final a fruição!